Liderança: missão e serviçoAgosto 13, 2014

Por Ana Paula Santos (*)

agosto de 2014

Tive o privilégio de, no passado dia 2 de junho, ouvir o Padre Geral da Companhia de Jesus, Adolfo Nicolás, numa conferência que deu em Coimbra sobre Liderança Inaciana. Na sua intervenção, começou por apresentar três características da Liderança Inaciana: ser Espiritual (partir do coração, partir de um caminho interior), ser Sábia (capacidade de discernir) e ser Prática (estar ao serviço de uma missão concreta; se não é prática, não serve).

Tendo em conta a realidade económica e social que vivemos, será importante ter humildade para refletir se, nas empresas, temos boas lideranças que permitem ter os melhores resultados ou se temos más lideranças que levam a perdas de negócios, de clientes, ou seja, que levam a resultados aquém do possível e do desejável.

Na edição de maio da Harvard Business Review é publicado um estudo, o Gallup’s 2013 State of the American Workplace Report, que evidencia que apenas 30% dos colaboradores estão ativamente comprometidos e realizam um bom trabalho nas suas empresas; 50% vão cumprir o horário de trabalho e 20% manifestam o seu descontentamento influenciando negativamente o trabalho dos colegas, perdendo dias de trabalho e levando à perda de clientes devido ao seu mau desempenho. Apenas estes 20% de colaboradores custam, por ano, à Economia Americana meio trilião de dólares! Qual a explicação para estes números? De acordo com este estudo da Gallup a principal razão é a má liderança.

O Padre Nicolás falou nas qualidades de um líder: ser FOCADO (saber o que quer), ser FLEXÍVEL (não impõe as suas ideias), ter RAPIDEZ DE DECISÃO (sempre baseado em factos), ser AMIGÁVEL, ter SENTIDO DE HUMOR e ser FUNCIONAL (ser capaz de traduzir a visão em ações concretas). Sendo todas estas características importantes, destaco duas: ser flexível e ter sentido de humor. Sobre ser flexível, o Padre Nicolás deu como exemplo a obediência inaciana:se um superior dá uma ordem que parece tonta, o subordinado deve comunicar isto ao superior. E, se for necessário, deve fazê-lo por escrito.” Quantos problemas se poderiam evitar se este princípio fosse aplicado nas empresas? Sobre o sentido de humor disse o Padre Nicolás: “Não há nada pior do que um chefe sem sentido de humor. Uma pessoa com sentido de humor sabe rir-se de si mesma. Um líder deve rir-se às gargalhadas. O sentido de humor humaniza a nossa vida. Os árabes dizem que quem não tem sentido de humor não tem alma.”

Sábias palavras estas do Padre Nicolás que afirmou ainda que “A liderança só faz sentido se estiver ao serviço de uma missão concreta. É necessário rever os estilos para corresponder aos reptos e aos desafios com que somos confrontados.”

A realidade atual mostra-nos o quanto o mundo sofre com a falta de líderes. A liderança é um dos principais desafios da sociedade contemporânea, porque sem liderança, nada muda, nada cresce, nada melhora, enfim, nada acontece, muito pelo contrário. Se nada fizermos para reverter este quadro, corremos o risco de tornar realidade o resultado de uma pesquisa realizada pela Universidade de Michigan na década de 90 do século XX, que dizia que o terceiro maior risco que poderia levar à destruição da sociedade é a falta de liderança nas instituições (o primeiro é a possibilidade de algum tipo de acidente nuclear que destrua a raça humana e o segundo a perspectiva de uma epidemia, doença ou depressão de âmbito mundial). Olhemos para o que está a acontecer à nossa volta…

A formação de novos líderes é uma das principais responsabilidades de quem lidera, isto é, de quem cuida do presente enquanto cria um futuro melhor, porque tem consciência de que o futuro não é apenas um lugar para onde estamos a ir, mas o lugar que estamos a construir, e que a construção do caminho que conduz a um futuro melhor passa necessariamente pela formação de novos líderes. Como disse Useen, “Liderar não significa apenas ter seguidores, mas saber quantos líderes se conseguem formar entre esses seguidores”.

Já no final da conferência, o Padre Adolfo Nicolás afirmou: “O bem comum, o bem de todos é o que deve reger quem lidera. O líder reage à realidade com todo o seu ser. E o amor entra na liderança.”

Porque vale a pena refletir e passar à ação, termino deixando-lhe algumas perguntas:

  • Gostaria de ser liderado por si?
  • Quantos líderes formou nos últimos anos?
  • Que vantagem têm as pessoas em tê-lo(a) como líder?
  • O que fala mais alto na sua vida: as suas palavras ou as suas atitudes?

São as respostas sinceras a estas perguntas que nos ajudarão a perceber se a nossa liderança tem feito diferença na vida das pessoas e contribuído para a construção de um mundo melhor.

(*) Senior Partner da aps Consultores

Coordenadora e formadora do programa de liderança Best About People Leadership®

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